Com Amor, Simon

Nada de comparações com Me Chame Pelo Seu Nome, pois tratam-se de obras que, apesar de abordar o mesmo tema, abordam de formas completamente diferentes, e um filme é tão eficiente quanto o outro.

Essa postagem não contém spoilers.

Simon (Nick Robinson, de Jurassic World) é um garoto de 17 anos que vive com sua família perfeita e seus amigos perfeitos. Ele, porém, tem um segredo que mais ninguém sabe; Simon é gay. Após descobrir a existência de outro gay "não-revelado" na escola, ele passa a trocar e-mails com essa pessoa, conhecida por ele apenas como Blue. Contudo, um garoto descobre os e-mails e passa a ameaçar divulga-los se ele não ajuda-lo a conquistar uma garota.

Mencionei Me Chame Pelo Seu Nome no início porque eu mesmo cheguei a compara-los antes de ver Com Amor, Simon. Acontece que as duas obras, apesar de grandiosas, possuem muitas diferenças. Enquanto aquele é um romance com requintes realistas, que mostra o amor como ele realmente é, este é uma comédia dramática, que aqui e ali adiciona toques de romance.

Numa análise geral, Com Amor, Simon quebrou muito as minhas expectativas. Eu esperava um filme bom, mas não tão tocante. Esperava um romance adolescente qualquer como Se Enlouquecer, Não se Apaixone, ou algo muito meloso como A Culpa é das Estrelas, mas ao invés disso, tive uma experiência ao mesmo tempo engraçada e emocionante, que me lembrou ótimos filmes como Extraordinário e As Vantagens de ser Invisível.

O modo como a narrativa brinca com o expectador é a coisa que mais me chamou atenção no filme. Sempre que Simon imagina a pessoa que pode ser Blue, essa pessoa aparece num quarto, e a fotografia do filme muda para um tom azulado. Além disso, o suspense criado pela dúvida sobre quem realmente é o Blue é um dos pontos mais altos (e sua revelação no final é simplesmente o topo). E o filme brinca conosco nisso também, fazendo-nos imaginar que o Blue é um certo personagem, e na hora da revelação esse personagem realmente aparece, apenas para quebrar o clima tenso com um alívio cômico.

As atuações são ótimas, mas a menção honrosa vai para Nick Robinson, que consegue expressar absolutamente tudo o que Simon está sentindo, fazendo que nos aproximemos cada vez mais dele, e torçamos por ele. Logan Miller (Quatro Vidas de um Cachorro) também manda ver nos entregando um personagem complexo, detestável na maioria das vezes, engraçado sempre, e até adorável em alguns momentos. Mas quem rouba a cena mesmo é Natasha Rothwell (Insecure). Sua personagem não tem muitas participações, nem muita importância na trama em geral, mas sempre que aparece, pode anotar que essas são as melhores cenas do filme.

Você vai sentir vergonha alheia. Muita! As situações que os personagens passam, como a cena do bar, e principalmente a cena do hino nacional, são de fazer você se morder de tanta vergonha alheia. E em relação ao Simon, você vai sentir tudo que ele sente. O filme é contado no seu ponto de vista, por isso acompanhamos tudo com ele. E sofremos com ele. A história parece não apresentar um problema muito grande para os personagens, mas quando você sente na pele tudo que o Simon passa, você percebe como aquilo é tão importante.

A importância do filme também está na mensagem que ele passa, sobre respeito e tolerância, algo que fica muito bem representado na cena em que dois estudantes sobem nas mesas no refeitório da escola, uma das melhores cenas do filme. Contudo, ele não está isento de defeitos. É praticamente impossível imaginar que uma escola de ensino médio possua tão poucos gays, isso me incomodou um pouco, e me lembrou Todo Mundo Odeia o Chris, onde o protagonista é o único negro na escola, mas a série é justificável por dois motivos; primeiro: é uma comédia que não se leva muito a sério; segundo: é feita uma crítica a toda a segregação ocorrida nos EUA e lá até hoje é comum existirem bairros só de moradores negros e bairros só de moradores brancos. Mas uma escola de ensino médio sem estudantes gays foi um pouco estranho para mim, apesar que eu não sou um bom conhecedor da cultura do local onde o filme se passa. Não é algo que prejudique sua experiência.

Uma música para o filme:

Inicialmente pensei em "Comum de dois", da Pitty, para representar esse filme. Mas numa análise mais aprofundada percebi que essa música se encaixaria melhor se o protagonista fosse outro personagem gay que aparece na obra, você saberá de quem eu estou falando. Ao invés disso escolhi uma música que não tem muito a ver com a história em si, mas trata-se de um manifesto em favor do amor e do respeito, interpretado por dois dos maiores artistas LGBT do Brasil na atualidade (na minha opinião os melhores). Se você acompanha a MPB recente, deve saber que eu estou falando de Johnny Hooker e Liniker, na sua incrível "Flutua", que traz ainda um clipe fortíssimo, com a brilhante participação de Jesuíta Barbosa. A música fala de preconceito, mas ao mesmo tempo traz essa mensagem de que o amor é mais forte que qualquer forma de intolerância. Acho que o filme também quis passar isso.

Música no YouTube

Trailer do filme


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