O Mundo Sombrio de Sabrina
A nova série original da Netflix prometia uma abordagem mais adulta numa série aparentemente adolescente, mas será que obteve êxito nesta empreitada?
Essa postagem não contém spoilers.
Sabrina Spellman (Kiernan Shipka) é uma adolescente de uma tradicional família de bruxas. Prestes a completar 16 anos, Sabrina precisa decidir se irá se entregar de corpo e alma ao mundo da bruxaria, e abrir mão dos amigos e namorado mortais, ou viver com os mortais e abrir mão da bruxaria.
Como o título original, "Chilling Adventures of Sabrina", já diz, a série não conta com uma trama específica, e sim pequenas aventuras enfrentadas pela bruxa, enquanto o pano de fundo se resume apenas à essa dúvida que acomete a protagonista. Essas aventuras são interessantes de se acompanhar, mas tiram a estrutura contínua da série, tornando-a quase uma antologia, em que cada episódio, ou dupla de episódios, mostra uma história diferente. Essa estrutura, apesar de não ser exatamente ruim, na maioria das vezes impede que seja criada a tensão e a preocupação com os personagens.
O enredo da série não traz grandes surpresas. A obra se sustenta pela mitologia criada e pelos personagens interessantes. O universo é rico e promissor, traz referências à mitologias como egípcia e ilocana, além de episódios com referências claras a filmes de terror do século XX, como O Exorcista, A Hora do Pesadelo, A Morte do Demônio e Suspiria. Os personagens, principalmente a família Spellman, sustentam grande parte da trama. As tias Zelda (Miranda Otto) e Hilda (Lucy Davis) trazem uma relação conturbada, cheia de altos e baixos, que rendem um bom arco dramático. Ambrose Spellman (Chance Perdomo) serve as vezes como alívio cômico, substituindo o Salem da série original (para quem mora em outro mundo e não sabe, Sabrina tem uma série mais antiga, de 1996, mais voltada para a comédia do que para o terror, ao contrário desta esta), mas sua atuação vai bem mais longe da mera comédia.
A própria Sabrina faz um bom trabalho. Sua enorme semelhança com Emma Watson (a Hermione da saga Harry Potter) nos ajuda ainda mais a criar empatia com a personagem, ainda mais se você também for fã da saga do bruxo. Ela consegue transitar de forma fluida entre o drama, a comédia e a ação, mostrando que não é simplesmente um rosto bonito. O gato, Salem, foi o maior desperdício da temporada (e provavelmente a maior decepção dos fãs), já que este não fala, e portanto, não tem seus comentários ácidos e irônicos que eram um ponto altíssimo da série original. Mas outros elementos, como os rituais muito bem mostrados, a aparência extremamente satânica do Senhor das Trevas, o humor negro, os encantamentos em latim, fazem valer a pena essa temporada.
Além de tudo, o enredo traz alguns discursos político-sociais muito interessantes sobre diversos assuntos, mas isso não é nenhuma novidade, já que a grande maioria das produções originais da Netflix fazem esse trabalho. A ambientação da série, que dá a entender que ela se passa entre os anos 70-80, dá um ar nostálgico que traz ainda mais relevância para esses assuntos abordados, já que no passado era ainda mais difícil falar sobre eles.
Os pequenos pontos fracos citados anteriormente, porém, não incomodam como outros. A fotografia da série é extremamente escura, sendo quase impossível enxergar em alguns momentos. Há também um desfoque em quase todas as cenas, deixando o fundo muito turvo, algo que também pode incomodar. Fora isso, Chilling Adventures of Sabrina é uma grata surpresa. Sua mitologia tem grande potencial para ser explorado em temporadas futuras, seus atores são carismáticos e sua estrutura não contínua pode transformá-la na futura "comfort série" de muita gente, apesar que os episódios tenham uma duração um pouco excessiva.
Uma música para a série:
A música "The Kill (Bury me)", da banda 30 Seconds to Mars, apesar de não ter relação com o assunto, possui alguns trechos que podem ser associados. Na letra, o eu lírico fala sobre uma relação que não deu certo, e por isso ele pede que a outra pessoa venha destruí-lo. Mas já depois da metade da música, chega o trecho que mais nos interessa. Ele fala sobre ter tentado ser outra pessoa. Sobre ter tentado mudar, sem êxito, até conseguir se aceitar como ele realmente é. Isso lembra a trajetória de Sabrina em relação ao seu futuro, onde a família tenta a todo custo fazer com que ela escolha o mundo da bruxaria, mas independente do caminho que ela siga, nada poderá mudar quem ela realmente é.
Música no YouTube
Trailer da série
Essa postagem não contém spoilers.
Sabrina Spellman (Kiernan Shipka) é uma adolescente de uma tradicional família de bruxas. Prestes a completar 16 anos, Sabrina precisa decidir se irá se entregar de corpo e alma ao mundo da bruxaria, e abrir mão dos amigos e namorado mortais, ou viver com os mortais e abrir mão da bruxaria.
Como o título original, "Chilling Adventures of Sabrina", já diz, a série não conta com uma trama específica, e sim pequenas aventuras enfrentadas pela bruxa, enquanto o pano de fundo se resume apenas à essa dúvida que acomete a protagonista. Essas aventuras são interessantes de se acompanhar, mas tiram a estrutura contínua da série, tornando-a quase uma antologia, em que cada episódio, ou dupla de episódios, mostra uma história diferente. Essa estrutura, apesar de não ser exatamente ruim, na maioria das vezes impede que seja criada a tensão e a preocupação com os personagens.
O enredo da série não traz grandes surpresas. A obra se sustenta pela mitologia criada e pelos personagens interessantes. O universo é rico e promissor, traz referências à mitologias como egípcia e ilocana, além de episódios com referências claras a filmes de terror do século XX, como O Exorcista, A Hora do Pesadelo, A Morte do Demônio e Suspiria. Os personagens, principalmente a família Spellman, sustentam grande parte da trama. As tias Zelda (Miranda Otto) e Hilda (Lucy Davis) trazem uma relação conturbada, cheia de altos e baixos, que rendem um bom arco dramático. Ambrose Spellman (Chance Perdomo) serve as vezes como alívio cômico, substituindo o Salem da série original (para quem mora em outro mundo e não sabe, Sabrina tem uma série mais antiga, de 1996, mais voltada para a comédia do que para o terror, ao contrário desta esta), mas sua atuação vai bem mais longe da mera comédia.
A própria Sabrina faz um bom trabalho. Sua enorme semelhança com Emma Watson (a Hermione da saga Harry Potter) nos ajuda ainda mais a criar empatia com a personagem, ainda mais se você também for fã da saga do bruxo. Ela consegue transitar de forma fluida entre o drama, a comédia e a ação, mostrando que não é simplesmente um rosto bonito. O gato, Salem, foi o maior desperdício da temporada (e provavelmente a maior decepção dos fãs), já que este não fala, e portanto, não tem seus comentários ácidos e irônicos que eram um ponto altíssimo da série original. Mas outros elementos, como os rituais muito bem mostrados, a aparência extremamente satânica do Senhor das Trevas, o humor negro, os encantamentos em latim, fazem valer a pena essa temporada.
Além de tudo, o enredo traz alguns discursos político-sociais muito interessantes sobre diversos assuntos, mas isso não é nenhuma novidade, já que a grande maioria das produções originais da Netflix fazem esse trabalho. A ambientação da série, que dá a entender que ela se passa entre os anos 70-80, dá um ar nostálgico que traz ainda mais relevância para esses assuntos abordados, já que no passado era ainda mais difícil falar sobre eles.
Os pequenos pontos fracos citados anteriormente, porém, não incomodam como outros. A fotografia da série é extremamente escura, sendo quase impossível enxergar em alguns momentos. Há também um desfoque em quase todas as cenas, deixando o fundo muito turvo, algo que também pode incomodar. Fora isso, Chilling Adventures of Sabrina é uma grata surpresa. Sua mitologia tem grande potencial para ser explorado em temporadas futuras, seus atores são carismáticos e sua estrutura não contínua pode transformá-la na futura "comfort série" de muita gente, apesar que os episódios tenham uma duração um pouco excessiva.
Uma música para a série:
A música "The Kill (Bury me)", da banda 30 Seconds to Mars, apesar de não ter relação com o assunto, possui alguns trechos que podem ser associados. Na letra, o eu lírico fala sobre uma relação que não deu certo, e por isso ele pede que a outra pessoa venha destruí-lo. Mas já depois da metade da música, chega o trecho que mais nos interessa. Ele fala sobre ter tentado ser outra pessoa. Sobre ter tentado mudar, sem êxito, até conseguir se aceitar como ele realmente é. Isso lembra a trajetória de Sabrina em relação ao seu futuro, onde a família tenta a todo custo fazer com que ela escolha o mundo da bruxaria, mas independente do caminho que ela siga, nada poderá mudar quem ela realmente é.
Música no YouTube
Trailer da série

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