Elite

Essa série foi chamada de várias coisas; nova La Casa de Papel, nova 13 Reasons Why, nova How to Get Away with Murder, e até de nova RBD, mas será que conseguiu construir sua própria identidade nesses 8 episódios?

Esta postagem não contém spoilers!

A nova série espanhola da Netflix conta a história de três alunos que ganham uma bolsa numa escola de classe alta. Lá, eles precisam lidar com a imensa desigualdade social presente entre eles e os demais alunos, conflitos comuns de adolescentes e um assassinato, onde todos são suspeitos.

Não há mais nada para se falar da premissa sem revelar detalhes importantes do enredo. Temos aqui uma série extremamente mediana, que se sustenta principalmente pelos arcos dos personagens coadjuvantes, que no decorrer da série, vão ganhando mais importância que os protagonistas, criando assim uma estrutura que eu só lembro de ter visto antes em Game of Thrones, onde você não sabe quem é realmente o protagonista. As subtramas, principalmente a de Carla, Christian e Polo e a de Ander e Omar, são de longe as mais interessantes da temporada, fazendo você se importar até mais com eles do que com quem cometeu o assassinato. Mas as semelhanças com a série da HBO param por aí.

Outro ponto forte da série é o fato do roteiro não deixar todas as grandes revelações para o final. Apesar disso fazer com que o climax da série não seja tão empolgante, impede que algumas dessas informações tornem-se forçadas. Infelizmente, a principal revelação (de quem é o assassino ou assassina) é um pouco previsível, mas como eu disse anteriormente, esse mistério é ofuscado pelas subtramas mais interessantes.

A série aborda temas importantes, algo que se tornou comum nas últimas produções da Netflix, como a desigualdade social, que é o mais retratado, mas também outros como homossexualidade, religião, aborto e drogas, todos tratados em termos qualitativos e quantitativos perfeitos. Talvez, junto às subtramas, o ponto mais alto da série.

O elenco faz um bom trabalho, adolescentes sendo adolescentes, e adultos que quase não aparecem fazendo papel de adultos chatos, como são normalmente vistos na visão dos adolescentes. Eles não precisam dar tudo de si porque o roteiro não exige isso, mas fazem o que podem com tudo o que têm. Menção honrosa para Marina, personagem mais aprofundada da série, marcada por nuances que a levam de uma patricinha rica a uma garota comum de periferia. Ótima performance de María Pedraza.

Em questões técnicas, a série também não tem nada memorável. A fotografia é escura e as vezes insaturada, o que contrasta com sua temática adolescente mas aproxima do mistério que "move" a trama. A estrutura é o ponto que mais a aproxima da anteriormente citada How to Get Away with Murder. O assassinato é apresentado no início da história, e então vamos acompanhando os acontecimentos que levaram os personagens até ali (a semelhança cresce ainda mais com a arma do crime, que nas duas séries, é um troféu). O tempo todo somos pontuados com trechos do interrogatório dos suspeitos, enquanto vamos acompanhando a trama antes do assassinato, e nos perguntando o que levaria alguém a cometer o crime, já que até certo ponto, não parece haver motivo suficiente para aquela barbárie. Essa dúvida, como já foi dito, é ofuscada pelas subtramas que prendem mais a atenção do que a trama principal.

Por fim, Elite é uma série que vale a pena ser vista, mas não espere nada espetacular, memorável. A interação entre os personagens, as intrigas e até as excitantes cenas de sexo a tornam uma boa produção, mas o enredo é extremamente clichê, pouco surpreende e não te deixa imensamente ansioso para o próximo episódio, como é o caso da sua irmã, La Casa de Papel, da qual já falei aqui.

Uma música para o filme:

Filosofia, composta por Noel Rosa e André Filho, foi a primeira música que me veio à cabeça. Não muito conhecida pelo público em geral, a letra, extremamente crítica, fala sobre desigualdade social. Claro que seria mais complicado encontrar uma que falasse sobre um assassinato, portanto achei que esta já seria suficiente. Em trechos, ela fala de alguém que sofre preconceito por ser pobre, e que precisa "se fingir" de rico, para que ninguém zombe dele. Os personagens não se fingem de ricos na série, mas os outros aspectos da música, como sofrer bullying apenas pelo fato de ser pobre, vai de encontro a uma das características mais importantes da obra.

Música no YouTube

Trailer da série


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