La Casa de Papel
As pessoas adoram uma causa perdida. Ouvi esta frase pela primeira vez na maravilhosa série Penny Dreadful, e ela se encaixa perfeitamente ao enredo desta série que se tornou bastante conhecida em pouquíssimo tempo.
Esta postagem não contém spoilers.
La Casa de Papel é uma série espanhola de 2017, lançada originalmente em 15 episódios. Ao ser comprada pela Netflix, a série sofreu uma alteração, em que seus episódios foram divididos e transformados em duas "temporadas", uma de 13, e uma de 9 episódios. Essa estratégia serviu para deixar os espectadores mais curiosos quanto ao final, já que a Netflix é famosa por lançar temporadas completas de uma única vez. Eu particularmente não me agradei com essa alteração, acredito que a série deveria ser exibida no seu corte original, em duas partes de 9 e 6 episódios, mas isso não compromete a experiência.
Um grupo de ladrões liderados pelo Professor (Álvaro Morte) entram em ação após longos meses de planejamento daquele que deverá ser o maior assalto da história. O alvo: a Casa da Moeda da Espanha. Ao início do roubo, entra em ação a inspetora Raquel Murillo (Itziar Ituño), encarregada de negociar com os assaltantes para liberar os reféns e dar um fim naquela empreitada. As coisas, porém, saem dos eixos tanto para ela, com a frequente interferência do Serviço Secreto da Espanha, quanto para os ladrões, com várias reviravoltas que passam a comprometer o plano.
Por que La Casa de Papel ganhou o público com tanta facilidade? Alcançando o mesmo sucesso de obras como Stranger Things em um tempo muito menor? É o que eu disse no início da postagem: as pessoas adoram uma causa perdida. Isso é explicitado na própria série em alguns momentos. Um dos planos do Professor era ganhar o apoio da opinião pública, fazendo com que eles fossem vistos como heróis. Claro que isso acabou dividindo opiniões; na série, há os que apoiaram e os que desejavam que eles fossem presos. Isso condiz com a realidade: há quem ame e há quem odeie a série.
Obviamente a obra não é algo cheio de significado, que necessite de uma reflexão ou que seja difícil de entender. Ela foi feita para entreter, e apenas para isso. E é também por isso que ela ficou tão popular. La Casa de Papel usa uma narrativa ágil, que quase nunca descansa, tendo sempre algo novo para mostrar e surpreender. Em nenhum momento a série perde o ritmo. Cada episódio termina com alguma pendência, fazendo você ficar ansioso pelo próximo. É uma série feita para ser maratonada, e por ter episódios não muito longos e uma história que prende a atenção, ela conseguiu seu feito.
Apesar disso, não significa que a produção não seja cuidadosa. A fotografia é belíssima, geralmente muito insaturada, algo incomum para o gênero, criando um contraste com a história ágil, já que esse tipo de fotografia é geralmente usado em obras de terror ou suspense investigativo. A direção também é quase impecável, trazendo tomadas de ângulos ousados, e se preocupando em deixar todos os personagens em primeiro plano. Só encontrei uma falha nesse quesito no último episódio, numa determinada cena de ação muito mal dirigida, em que a "tremedeira" da câmera prejudicava o entendimento da cena.
O elenco é o grande destaque da série. Todos (absolutamente todos) os personagens estão muito bem em seus determinados papéis. Todos parecem muito à vontade, alguns não têm tanto destaque quanto outros, mas você se apaixona pela maioria deles (exceto alguns que foram feitos para você realmente não se apaixonar, como o famigerado Arturo (Enrique Acre)). Há personagens complexos, que dividem opiniões, como Berlin (Pedro Alonso), já que uns amam e outros odeiam. Outros que nos ganham por sua inteligência e perspicácia, como o Professor e a inspetora Murillo. Há também os que amamos por suas atitudes, as vezes impulsivas, que os torna mais humanos, como é o caso de Rio (Miguel Herrán) e Tóquio (Úrsula Corberó). E por fim, e para mim a melhor personagem, aquela que nos ganha por seu carisma inigualável, o grande destaque entre a equipe; Nairóbi (Alba Flores). É interessante também ver uma série com atores desconhecidos pelo grande público. Recomendo que você a assista no áudio original (espanhol europeu). Eu particularmente passei a gostar muito mais de espanhol após a série.
Claro que La Casa de Papel não é isenta de falhas. Quanto a sua estrutura narrativa, em pouco tempo a série mostrou que possui cenas muito surpreendentes, mas algumas delas parecem impossíveis demais, como se tivessem sido colocadas no roteiro apenas porque não havia mais nenhuma reviravolta, e eles precisavam de alguma. Um exemplo disso é a cena em que certo personagem entra na Casa da Moeda de moto, algo que poderia ter sido facilmente revertido, mas não vou entrar em detalhes para poupá-los de possíveis spoilers. Quanto ao enredo, a série se preocupa muito em mostrar o quanto o Professor é inteligente e pensou em cada detalhe do plano, mas algumas coisas que acontecem não passam de meras coincidências, que teriam posto tudo por água a baixo caso não acontecessem, como é o caso da cena do chá com a mãe de Raquel, que por sua vez trouxe uma revelação interessante no momento certo.
De forma geral, as falhas da série não comprometem nosso entretenimento. La Casa de Papel é mais uma prova de que a Netflix deve continuar trazendo séries de outros países que não sejam só EUA e Brasil, pois essa ideia está revelando várias pérolas como Dark, The End of the F***ing World e a recente The Rain, da qual eu falarei em breve.
Uma música para a série:
A música para esta série não poderia ser outra senão "Bella ciao". Não se sabe ao certo quem compôs ou quando foi composta esta música. Ela já foi usada para criticar as duras condições de trabalho no campo; foi grito de guerra de soldados da Primeira Guerra Mundial, e sua última versão (a que é usada na série) foi feita em resistência ao fascismo que se instaurou na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Sua letra fala sobre alguém que está prestes a morrer ("bella ciao" significa "querida, adeus" em italiano), mas sente-se feliz por ter participado da resistência. No contexto original, a resistência contra o fascismo. No contexto da série, a resistência seria o roubo em si, já que é um ato de rebeldia contra o Estado. E os ladrões estão dispostos a dar tudo de si em prol da resistência (roubo), inclusive a vida, se for preciso.
Música no YouTube
Trailer da série
Esta postagem não contém spoilers.
La Casa de Papel é uma série espanhola de 2017, lançada originalmente em 15 episódios. Ao ser comprada pela Netflix, a série sofreu uma alteração, em que seus episódios foram divididos e transformados em duas "temporadas", uma de 13, e uma de 9 episódios. Essa estratégia serviu para deixar os espectadores mais curiosos quanto ao final, já que a Netflix é famosa por lançar temporadas completas de uma única vez. Eu particularmente não me agradei com essa alteração, acredito que a série deveria ser exibida no seu corte original, em duas partes de 9 e 6 episódios, mas isso não compromete a experiência.
Um grupo de ladrões liderados pelo Professor (Álvaro Morte) entram em ação após longos meses de planejamento daquele que deverá ser o maior assalto da história. O alvo: a Casa da Moeda da Espanha. Ao início do roubo, entra em ação a inspetora Raquel Murillo (Itziar Ituño), encarregada de negociar com os assaltantes para liberar os reféns e dar um fim naquela empreitada. As coisas, porém, saem dos eixos tanto para ela, com a frequente interferência do Serviço Secreto da Espanha, quanto para os ladrões, com várias reviravoltas que passam a comprometer o plano.
Por que La Casa de Papel ganhou o público com tanta facilidade? Alcançando o mesmo sucesso de obras como Stranger Things em um tempo muito menor? É o que eu disse no início da postagem: as pessoas adoram uma causa perdida. Isso é explicitado na própria série em alguns momentos. Um dos planos do Professor era ganhar o apoio da opinião pública, fazendo com que eles fossem vistos como heróis. Claro que isso acabou dividindo opiniões; na série, há os que apoiaram e os que desejavam que eles fossem presos. Isso condiz com a realidade: há quem ame e há quem odeie a série.
Obviamente a obra não é algo cheio de significado, que necessite de uma reflexão ou que seja difícil de entender. Ela foi feita para entreter, e apenas para isso. E é também por isso que ela ficou tão popular. La Casa de Papel usa uma narrativa ágil, que quase nunca descansa, tendo sempre algo novo para mostrar e surpreender. Em nenhum momento a série perde o ritmo. Cada episódio termina com alguma pendência, fazendo você ficar ansioso pelo próximo. É uma série feita para ser maratonada, e por ter episódios não muito longos e uma história que prende a atenção, ela conseguiu seu feito.
Apesar disso, não significa que a produção não seja cuidadosa. A fotografia é belíssima, geralmente muito insaturada, algo incomum para o gênero, criando um contraste com a história ágil, já que esse tipo de fotografia é geralmente usado em obras de terror ou suspense investigativo. A direção também é quase impecável, trazendo tomadas de ângulos ousados, e se preocupando em deixar todos os personagens em primeiro plano. Só encontrei uma falha nesse quesito no último episódio, numa determinada cena de ação muito mal dirigida, em que a "tremedeira" da câmera prejudicava o entendimento da cena.
O elenco é o grande destaque da série. Todos (absolutamente todos) os personagens estão muito bem em seus determinados papéis. Todos parecem muito à vontade, alguns não têm tanto destaque quanto outros, mas você se apaixona pela maioria deles (exceto alguns que foram feitos para você realmente não se apaixonar, como o famigerado Arturo (Enrique Acre)). Há personagens complexos, que dividem opiniões, como Berlin (Pedro Alonso), já que uns amam e outros odeiam. Outros que nos ganham por sua inteligência e perspicácia, como o Professor e a inspetora Murillo. Há também os que amamos por suas atitudes, as vezes impulsivas, que os torna mais humanos, como é o caso de Rio (Miguel Herrán) e Tóquio (Úrsula Corberó). E por fim, e para mim a melhor personagem, aquela que nos ganha por seu carisma inigualável, o grande destaque entre a equipe; Nairóbi (Alba Flores). É interessante também ver uma série com atores desconhecidos pelo grande público. Recomendo que você a assista no áudio original (espanhol europeu). Eu particularmente passei a gostar muito mais de espanhol após a série.
Claro que La Casa de Papel não é isenta de falhas. Quanto a sua estrutura narrativa, em pouco tempo a série mostrou que possui cenas muito surpreendentes, mas algumas delas parecem impossíveis demais, como se tivessem sido colocadas no roteiro apenas porque não havia mais nenhuma reviravolta, e eles precisavam de alguma. Um exemplo disso é a cena em que certo personagem entra na Casa da Moeda de moto, algo que poderia ter sido facilmente revertido, mas não vou entrar em detalhes para poupá-los de possíveis spoilers. Quanto ao enredo, a série se preocupa muito em mostrar o quanto o Professor é inteligente e pensou em cada detalhe do plano, mas algumas coisas que acontecem não passam de meras coincidências, que teriam posto tudo por água a baixo caso não acontecessem, como é o caso da cena do chá com a mãe de Raquel, que por sua vez trouxe uma revelação interessante no momento certo.
De forma geral, as falhas da série não comprometem nosso entretenimento. La Casa de Papel é mais uma prova de que a Netflix deve continuar trazendo séries de outros países que não sejam só EUA e Brasil, pois essa ideia está revelando várias pérolas como Dark, The End of the F***ing World e a recente The Rain, da qual eu falarei em breve.
Uma música para a série:
A música para esta série não poderia ser outra senão "Bella ciao". Não se sabe ao certo quem compôs ou quando foi composta esta música. Ela já foi usada para criticar as duras condições de trabalho no campo; foi grito de guerra de soldados da Primeira Guerra Mundial, e sua última versão (a que é usada na série) foi feita em resistência ao fascismo que se instaurou na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Sua letra fala sobre alguém que está prestes a morrer ("bella ciao" significa "querida, adeus" em italiano), mas sente-se feliz por ter participado da resistência. No contexto original, a resistência contra o fascismo. No contexto da série, a resistência seria o roubo em si, já que é um ato de rebeldia contra o Estado. E os ladrões estão dispostos a dar tudo de si em prol da resistência (roubo), inclusive a vida, se for preciso.
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Trailer da série

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