Bird Box

Desde que li o livro Caixa de Pássaros, de Josh Malerman, fiquei imaginando como seria uma adaptação cinematográfica de uma história tão difícil de adaptar. Essa adaptação chegou pelas mãos da Netflix, e tenho que admitir que foi uma grata surpresa.

Esta postagem NÃO contém spoilers.

Bird Box ("Às Cegas", no Brasil, título pelo qual me recuso a usar) se ambienta cinco anos após o "fim do mundo". De repente, as pessoas começaram a ficar loucas com algo que viam pelas ruas, e cometiam suicídio. No presente, temos Malorie (Sandra Bullock) e duas crianças, tendo que descer um rio, de olhos vendados, para chegar a um local seguro. No decorrer do filme, cenas do passado mostram, desde o início do surto, até os eventos que levaram ela e as crianças àquela situação.

Esta crítica não vai avaliar o filme como uma adaptação do livro, portanto vou dedicar apenas um parágrafo a isso. Como disse no início, Caixa de Pássaros não é um livro fácil de adaptar. Além da estrutura narrativa não linear, que passeia por vários momentos entre esses cinco anos, existe também a mitologia da obra, que em momento nenhum revela a aparência daquilo que faz as pessoas se suicidarem. Levar isso para a sétima arte e ainda conseguir se manter fiel não é tarefa fácil, mas pelo menos nesse quesito, o filme se sai muito bem. A falta de noção do que está causando tudo aquilo é o mais assustador da obra. A degradação da convivência dos sobreviventes em uma casa é uma consequência que também precisava ser abordada, e também é atingida com decência. Há algumas coisas novas, mas nada que interfira demais na adaptação. Somente no terceiro ato há uma pequena anomalia, o que mostra como o filme teria funcionado ainda melhor se tivesse alguns minutos a menos. Não é uma adaptação do nível de O Senhor dos Anéis, por exemplo, mas também não é uma total perda de tempo, como os desastrosos filmes de Percy Jackson.

Os pontos fortes já começam pelos personagens. E seria extremamente difícil trazer personagens ruins com um elenco de peso desses, não é mesmo? Além de Sandra Bullock (Miss Simpatia) mostrando do que é capaz, encarnando uma Malorie forte, inteligente, e com uma evolução notável durante a trama, temos também John Malkovich (RED), no papel do controverso Douglas; Trevante Rhodes (Moonlight) como Tom, e ainda uma participação da incrível Sarah Paulson (12 Anos de Escravidão) como Jessica, irmã de Malorie. As crianças também fazem um bom papel, apesar de não terem tanto tempo para brilhar de verdade.

Para um filme que trabalha com subjetividade, os quesitos técnicos precisam ser bastante cuidadosos. Aqui, a direção da premiada Susanne Bier sabe como manipular as câmeras para que o espectador fique extremamente curioso, tentando de qualquer forma encontrar algo escondido na paisagem, sem sucesso. A fotografia é a mais comum para filme de apocalipse. A falta de saturação ressalta a ausência de esperança, o pessimismo enfrentado pelos personagens. Nas cenas que se passam dentro de casa, no passado, há abundância de cores mais quentes, aconchegantes, enquanto o presente abusa de cores frias e sem vida. A trilha sonora também tem seus méritos. Clássicos do pop e rock podem ser ouvidos em algumas cenas do passado, e no presente, uma paradoxal trilha calma que serve para aumentar ainda mais a tensão do espectador nas cenas em que algum perigo está iminente.

O roteiro segue quase fielmente seu material original, como já foi abordado, mas possui algumas diferenças, usadas para facilitar a transição entre mídias. Muitos podem reclamar da falta de respostas no filme, mas isso não é um desmérito, e mesmo se fosse não seria só dele, já que o próprio livro não dá essas respostas. Tudo é feito de forma a atiçar a curiosidade do expectador. Aquela coisa horrível que todos estão vendo e ficando loucos pode ser absolutamente qualquer coisa, e o medo do desconhecido é algo que remonta dos princípios da humanidade. O que você imagina que pode ser aquilo?

De forma geral, Bird Box é uma produção que se sobressai a quase todos os outros filmes originais lançados pela gigante do streaming. São duas horas de pura tensão, algumas cenas chocantes, boas atuações e várias pulgas atrás da orelha, que com certeza não vão sair de lá ao fim do filme. Mas pelo menos temos algo que gera discussão. Qual sua teoria sobre os "monstros" que causaram o fim do mundo?

Uma música para o filme:

Vocês vão rir com a música que eu escolhi. Vão rir porque o significado real dela não tem absolutamente nada a ver com esse filme, mas me perdoem, eu estava passando por um forte bloqueio criativo e não pensei em nada melhor. A música "Refrão de Bolero", da banda de Pop Rock brasileira Engenheiros do Hawaii, fala sobre alguém arrependido que bebe e fuma num bar lembrando dos lábios e olhos de sua amada. Mas o que nessa música, me lembrou Bird Box? Uma simples frase no fim do refrão: "O teu olhar sempre me engana; é o fim do mundo todo dia da semana". Essa frase, se você esquecer o resto da letra, diz muito sobre o filme. Basta um olhar, e tudo está perdido. E isso pode acontecer todos os dias, sem exceção, e com qualquer pessoa. É o fim do mundo, todos os dias. Forçado? Talvez, um pouco. Mas como eu disse, foi a única coisa que pude pensar. Me dêem ideias melhores.

Música no YouTube

Trailer do filme


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