Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald
Contrariando todas as críticas negativas que o filme vinha recebendo, eu gostei muito da obra, não só como fã da saga, como também pelo olhar crítico.
Esta postagem não contém spoilers.
O filme começa com a fuga de Gerardo Grindelwald (Johnny Depp) do Ministério da Magia dos EUA. Após a fuga, o bruxo passa a reunir seguidores e espalhar sua palavra. Enquanto isso, Alvo Dumbledore (Jude Law) pede a ajuda de Newt Scamander (Eddie Redmayne) para enfrentar o bruxo das trevas. Nessa nova jornada, os protagonistas vão a Paris, para encontrar Credence Barebone (Ezra Miller), o Obscurus, antes que Grindelwald o faça.
O principal problema apontado pelos críticos foi o roteiro, portanto vou começar falando dele. Já adianto: não achei tão confuso quanto disseram. Realmente há vários personagens e muitas subtramas, mas com atenção, tudo pode ser perfeitamente entendido. Só houve uma parte, na transição entre segundo e terceiro ato, que as coisas ficaram um pouco confusas devido a pressa de algumas cenas, mas é um efeito rápido. O roteiro de J. K. Rowling é complexo, consegue dar importância a praticamente todos os personagens, criar novos mistérios e expandir ainda mais o seu vasto universo. O único problema que identifiquei foi a conclusão da obra e o "plot-twist" do final, que além realmente confundir tudo, ficou um pouco forçado.
Mas a partir daí, o filme é só elogios. É o capítulo mais visualmente bonito da franquia (incluindo os filmes de Harry Potter). Os efeitos especiais estão infinitamente melhores que os outros, as criaturas e os feitiços são de tirar o fôlego, o cuidado aqui foi muito maior do que nos anteriores. Os animais até têm algum destaque, diferente do que disseram, e uma das melhores cenas do filme envolve o mais impressionante animal do longa, o Zouwu.
O elenco do primeiro filme continua fazendo um bom trabalho, principalmente Eddie Redmayne, com seu, apesar de excêntrico e desajeitado, extremamente inteligente e poderoso Newt. Johnny Depp, contrariando todas as expectativas (inclusive as minhas), traz uma das melhores atuações do longa. Seu Grindelwald é absolutamente calmo e possui uma lábia muito eficiente (lábia essa que leva a um dos momentos mais tristes do filme), contrastando com seu monstro interior, algo que lembra muito outros líderes autoritários como Hitler.
Jude Law, como sempre, dá um show, e apesar do pouco tempo de tela, Dumbledore é um dos personagens mais carismáticos do filme. Mas o que realmente me chamou atenção, apesar da participação minúscula, foi Joshua Shea, que interpreta o jovem Newt, em um flashback de Leta Lestrange. A expressão corporal do garoto é tão idêntica ao do Newt atual, que eu achei que fosse o próprio Eddie Redmayne, rejuvenescido por CGI. Os demais personagens não trazem atuações brilhantes, mas também não são nada maus.
A trilha sonora revive o tema clássico da saga Harry Potter, e o momento em que o majestoso castelo de Hogwarts aparece, ao som da música, é de arrepiar. O colégio desperta uma sensação de nostalgia que logo é pontuada pelos flashbacks. O figurino dos personagens também ajuda a construir essa nostalgia. É um fan-service muito bem-vindo.
A direção de David Yates, que comanda a saga desde Harry Potter e a Ordem da Fênix, traz algumas tomadas nunca vistas antes na franquia, o que é uma escolha de risco. Logo no início você já pode notar vários closes nos rostos dos personagens, como se a cena fosse em primeira pessoa. Há também algumas cenas em que a câmera está um pouco trêmula, mesmo sem ação, como que para expressar alguma tensão que o personagem está sentindo. Mas o diretor também abusa de planos abertos de tirar o fôlego, como na já citada cena da aparição de Hogwarts, e também em Paris.
A fotografia está no tom certo, com a frieza dos últimos filmes da saga anterior, para ilustrar a tensão do momento, e ao mesmo tempo não tão escura, para que possamos ver em detalhes cada belíssima criatura. Ainda sobre o tom, aqui temos um filme muito mais "adulto" que qualquer outro da saga, até mesmo que os dois Reliquias da Morte. A autora não poupa o uso do feitiço Avada Kedavra (mesmo que não seja dito nenhuma vez no filme, o clarão de luz verde é inesquecível), e este provavelmente tem mais mortes do que os sete primeiros filmes da saga Harry Potter, portanto prepare-se para ver uma história bem mais amadurecida que a anterior.
Em suma, indo totalmente ao contrário do que disseram a maioria dos críticos, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald consegue ser ainda melhor que seu antecessor, com uma trama mais complexa e urgente, que apresenta novas e impressionantes criaturas, e deixa várias pontas soltas para os próximos filmes. A única coisa que me incomodou foi a conclusão, mas espero que tudo seja melhor explicado no futuro.
Uma música para o filme:
Apesar de tudo, Os Crimes de Grindelwald é um filme sobre os perigos e a ascensão do fascismo. O modo como as palavras do vilão enfeitiçam (mesmo sem usar bruxaria) é um alerta quanto ao perigo que alguns políticos representam. A trajetória de alguns personagens, até mesmo alguns do bem (como aquela que protagoniza a cena triste que eu mencionei anteriormente), diz muito sobre pessoas de bem que são enganadas por essas palavras, e eu espero que elas ainda possam se redimir no futuro. Apesar do tom sombrio que acompanha a obra do início ao fim, temos um fiapo de esperança numa das últimas cenas. Apesar das perdas, tudo ainda pode ser reparado.
Com tanto uso da palavra "apesar", vocês já devem imaginar qual música eu escolhi. "Apesar de você", de Chico Buarque, é considerada uma das maiores canções da história do Brasil. Composta durante a ditadura, o samba fala explicitamente de alguém que está fazendo mal ao eu lírico, mas o dia irá passar, e isso também. Implicitamente, o "você" da letra, se refere aos militares que estavam no poder. Por isso a música sofreu censura, e obrigou seu compositor a usar um pseudônimo para se proteger. Tempos sombrios, não há como negar.
Música no Youtube
Trailer do filme
Esta postagem não contém spoilers.
O filme começa com a fuga de Gerardo Grindelwald (Johnny Depp) do Ministério da Magia dos EUA. Após a fuga, o bruxo passa a reunir seguidores e espalhar sua palavra. Enquanto isso, Alvo Dumbledore (Jude Law) pede a ajuda de Newt Scamander (Eddie Redmayne) para enfrentar o bruxo das trevas. Nessa nova jornada, os protagonistas vão a Paris, para encontrar Credence Barebone (Ezra Miller), o Obscurus, antes que Grindelwald o faça.
O principal problema apontado pelos críticos foi o roteiro, portanto vou começar falando dele. Já adianto: não achei tão confuso quanto disseram. Realmente há vários personagens e muitas subtramas, mas com atenção, tudo pode ser perfeitamente entendido. Só houve uma parte, na transição entre segundo e terceiro ato, que as coisas ficaram um pouco confusas devido a pressa de algumas cenas, mas é um efeito rápido. O roteiro de J. K. Rowling é complexo, consegue dar importância a praticamente todos os personagens, criar novos mistérios e expandir ainda mais o seu vasto universo. O único problema que identifiquei foi a conclusão da obra e o "plot-twist" do final, que além realmente confundir tudo, ficou um pouco forçado.
Mas a partir daí, o filme é só elogios. É o capítulo mais visualmente bonito da franquia (incluindo os filmes de Harry Potter). Os efeitos especiais estão infinitamente melhores que os outros, as criaturas e os feitiços são de tirar o fôlego, o cuidado aqui foi muito maior do que nos anteriores. Os animais até têm algum destaque, diferente do que disseram, e uma das melhores cenas do filme envolve o mais impressionante animal do longa, o Zouwu.
O elenco do primeiro filme continua fazendo um bom trabalho, principalmente Eddie Redmayne, com seu, apesar de excêntrico e desajeitado, extremamente inteligente e poderoso Newt. Johnny Depp, contrariando todas as expectativas (inclusive as minhas), traz uma das melhores atuações do longa. Seu Grindelwald é absolutamente calmo e possui uma lábia muito eficiente (lábia essa que leva a um dos momentos mais tristes do filme), contrastando com seu monstro interior, algo que lembra muito outros líderes autoritários como Hitler.
Jude Law, como sempre, dá um show, e apesar do pouco tempo de tela, Dumbledore é um dos personagens mais carismáticos do filme. Mas o que realmente me chamou atenção, apesar da participação minúscula, foi Joshua Shea, que interpreta o jovem Newt, em um flashback de Leta Lestrange. A expressão corporal do garoto é tão idêntica ao do Newt atual, que eu achei que fosse o próprio Eddie Redmayne, rejuvenescido por CGI. Os demais personagens não trazem atuações brilhantes, mas também não são nada maus.
A trilha sonora revive o tema clássico da saga Harry Potter, e o momento em que o majestoso castelo de Hogwarts aparece, ao som da música, é de arrepiar. O colégio desperta uma sensação de nostalgia que logo é pontuada pelos flashbacks. O figurino dos personagens também ajuda a construir essa nostalgia. É um fan-service muito bem-vindo.
A direção de David Yates, que comanda a saga desde Harry Potter e a Ordem da Fênix, traz algumas tomadas nunca vistas antes na franquia, o que é uma escolha de risco. Logo no início você já pode notar vários closes nos rostos dos personagens, como se a cena fosse em primeira pessoa. Há também algumas cenas em que a câmera está um pouco trêmula, mesmo sem ação, como que para expressar alguma tensão que o personagem está sentindo. Mas o diretor também abusa de planos abertos de tirar o fôlego, como na já citada cena da aparição de Hogwarts, e também em Paris.
A fotografia está no tom certo, com a frieza dos últimos filmes da saga anterior, para ilustrar a tensão do momento, e ao mesmo tempo não tão escura, para que possamos ver em detalhes cada belíssima criatura. Ainda sobre o tom, aqui temos um filme muito mais "adulto" que qualquer outro da saga, até mesmo que os dois Reliquias da Morte. A autora não poupa o uso do feitiço Avada Kedavra (mesmo que não seja dito nenhuma vez no filme, o clarão de luz verde é inesquecível), e este provavelmente tem mais mortes do que os sete primeiros filmes da saga Harry Potter, portanto prepare-se para ver uma história bem mais amadurecida que a anterior.
Em suma, indo totalmente ao contrário do que disseram a maioria dos críticos, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald consegue ser ainda melhor que seu antecessor, com uma trama mais complexa e urgente, que apresenta novas e impressionantes criaturas, e deixa várias pontas soltas para os próximos filmes. A única coisa que me incomodou foi a conclusão, mas espero que tudo seja melhor explicado no futuro.
Uma música para o filme:
Apesar de tudo, Os Crimes de Grindelwald é um filme sobre os perigos e a ascensão do fascismo. O modo como as palavras do vilão enfeitiçam (mesmo sem usar bruxaria) é um alerta quanto ao perigo que alguns políticos representam. A trajetória de alguns personagens, até mesmo alguns do bem (como aquela que protagoniza a cena triste que eu mencionei anteriormente), diz muito sobre pessoas de bem que são enganadas por essas palavras, e eu espero que elas ainda possam se redimir no futuro. Apesar do tom sombrio que acompanha a obra do início ao fim, temos um fiapo de esperança numa das últimas cenas. Apesar das perdas, tudo ainda pode ser reparado.
Com tanto uso da palavra "apesar", vocês já devem imaginar qual música eu escolhi. "Apesar de você", de Chico Buarque, é considerada uma das maiores canções da história do Brasil. Composta durante a ditadura, o samba fala explicitamente de alguém que está fazendo mal ao eu lírico, mas o dia irá passar, e isso também. Implicitamente, o "você" da letra, se refere aos militares que estavam no poder. Por isso a música sofreu censura, e obrigou seu compositor a usar um pseudônimo para se proteger. Tempos sombrios, não há como negar.
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