Três Anúncios para um Crime

Esta postagem não contêm spoilers.

Quando soube que Três Anúncios para um Crime se tratava de um drama com humor negro, eu perdi um pouco a vontade de vê-lo, pois acho que em alguns casos, o humor pode estragar o drama de uma obra. Nesse caso, porém, foi ao contrário, o drama acaba tornando sérios até os momentos que eram para ser engraçados.

Mildred Hayes (Frances McDormand, de Fargo) é a mãe de uma garota que foi sequestrada, estuprada e morta sete meses atrás. Decepcionada com o trabalho da polícia local, que por todo esse tempo não prendeu nem sequer um suspeito, ela decide alugar três outdoors numa estrada pouco movimentada, e colocar neles frases que cutuquem a polícia, para chamar a atenção deles e do resto da cidade de volta ao caso.

Esta decisão, porém, acarreta uma série de problemas que vão se tornando gradativamente piores, chegando ao ponto de serem quase inacreditáveis. O maior mérito da trama é a forma como os personagens vão se deteriorando, conforme a história vai progredindo. São vários os momentos em que você tem vontade de gritar "Não! Não faça isso seu idiota!", porque algumas decisões que os personagens tomam são simplesmente difíceis de digerir.

Como eu disse no início da postagem, o filme está classificado como comédia, mas eu não consegui rir em nenhuma cena, simplesmente porque ou elas eram inacreditáveis demais, ou tinham como pano de fundo uma carga dramática pesadíssima. Mas eu me surpreendi. Fiquei de queixo caído durante quase toda a projeção. Tudo o que é mostrado nesse filme parece estar um pouco acima do convencional. É como se fosse uma forma que o diretor encontrou de criar uma contradição na obra: estamos falando de um filme de drama sobre uma mãe que perdeu sua filha e quer que as autoridades façam alguma coisa, ou seja, é algo infelizmente comum, que pode acontecer em qualquer lugar. Mas o modo como as coisas acontecem, as ações dos personagens, as reviravoltas, é tudo um pouco exagerado (de uma maneira boa), como se essa fosse a tal comédia que colocaram na classificação.

Pouquíssimas cenas possuem trilha sonora, por isso é difícil dizer se ela está boa, mas eu particularmente gosto de filmes com pouca trilha. A ausência de uma música nos momentos mais tensos, deixa eles ainda piores, mais crus, mais reais. A fotografia é linda, não muito saturada, nem totalmente sem cor. A direção abusa de planos longos e abertos, mostrando os três cartazes em foco de uma vez só, ou focando em uma cena na casa da protagonista, onde também podemos ver os cartazes no fundo, quase como se o filme quisesse dizer que eles são onipresentes. E aqui temos mais uma contradição: em alguns momentos, você esquece que está assistindo a um filme sobre os três anúncios, porque as subtramas simplesmente prendem sua atenção. É um filme de drama sobre a decadência de personagens falíveis, que por acaso, tem uns cartazes envolvidos.

E por falar em personagens, que atuações, meus amigos! Frances McDormand esbanja seu jeito durão, como se estivesse a ponto de dar uma cabeçada em alguém a qualquer momento. Woody Harrelson (True Detective) está maravilhoso como sempre, trazendo seu ar meio psicopata natural, para um oficial de polícia. Caleb Landry Jones (Corra!) rouba a cena toda vez que aparece, sendo o alívio cômico (talvez não tão cômico) da trama. Peter Dinklage (Game of Thrones) é o Peter Dinklage de sempre, embora aqui não tão seguro de suas ações quanto Tyrion, de GoT. Mas quem nos entrega a melhor atuação do filme é, sem dúvidas, Sam Rockwell (Sete Psicopatas e um Shih Tzu). Seu personagem é racista, homofóbico, descontrolado, imprevisível, e aparenta ser louco, mas sua evolução durante a trama é uma das melhores que eu já vi.

Em suma, Três Anúncios para um Crime é o meu preferido para levar o Oscar de Melhor Filme. Ele me lembrou um New Western (um dos meus subgêneros preferidos), sem a ação característica. Todos os personagens estão perfeitos e suas jornadas são aterradoras. A parte técnica é impecável. Sinceramente, não consegui identificar nada que pudesse ser um ponto fraco. Talvez o final não seja para qualquer um, mas eu achei incrível, assim como o resto da obra.

Uma música para o filme:

É difícil imaginar uma música que se encaixe com o tema deste filme. Ele é complexo, possui subtramas, e o tema principal nem é realmente o principal. Por isso, optei por algo que expressasse a dor que a protagonista, Mildred, estava sentindo. Pensei numa música sobre perda. A letra desta música, algumas vezes é interpretada como alguém falando para uma pessoa que foi embora, e outras vezes, como alguém falando para uma pessoa que morreu, que seria o caso deste filme. A música é "Gostava tanto de você", de Tim Maia, e quem a conhece, e já viu o filme, entenderá que a letra traduz todas as emoções que a personagem estava sentindo. Talvez a cena que mais expresse isso, seja a do veado que aparece próximo aos cartazes. Apenas assista, você não irá se arrepender.

Música no YouTube

Trailer do filme


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